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O segundo aspecto relevante para entender os ideais libertários de
ambos os estadistas, é que a luta por implantar amplas liberdades
cívicas estava inseparavelmente unida a um projeto conservador
no comando do governo.
No caso do esquema andradino, os historiadores sublinham “o ca-
ráter contraditório de seu programa, politicamente conservador
mas avançado no nível econômico e social
10
” e inclusive chega-
se ao extremo de negar seu fundamento liberal
11
. Esta aparente
ambigüidade é claramente superada quando se compreende a base
doutrinaria do Andrada, que não contemplava contradição nenhu-
ma entre um programa civilizatório de transformar uma velha co-
lônia em uma nação semelhante aos modelos da Europa liberal,
mas mantendo o controle do processo pela elite governante, para
afastar o perigo da anarquia democrática. Segundo argumentação
de Dolhnikoff, “tratava-se, na verdade, de encontrar saídas para
garantir o desenvolvimento do país, equiparando-o às nações euro-
péias, façanha da qual a própria elite seria a maior beneficiária
12
”
Na explanação de Barreto, o Patriarca, junto a Hipólito da Costa
e Silvestre Pinheiro Ferreira, representava a forma ideológica do
liberalismo centrista, que deita suas origens na experiência ingle-
10
COSTA, Emília VIOTTI DA. Da Monarquia a República: momentos decisivos. 5
ed. São Paulo, Editora Brasiliense,1987, p. 117. No mesmo sentido, Pádua afirma
que “um dos pontos que surpreendem em sua obra é da radicalidade para a época
—e até para o momento atual— de alguma de suas propostas de reforma social,
especialmente se confrontadas com suas posições conservadoras, se bem que le-
galistas, no que se refere a organização do poder político”. P
ÁDUA, José Augusto.
Um sopro de destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil escra-
vista. Editora Jorge Zahar, 2002, p. 130.
11
Este e o caso de José Murilo de Carvalho para quem existiam três categorias
de ideólogos: os liberais, os conservadores preocupados com o problema da liber-
dade (cujo exemplo no Brasil era o Visconde de Uruguai), e os conservadores
puros que tinham nos valores da ordem e da unidade seus alvos supremos. Entre
estes estava José Bonifácio, que mesmo sendo um reformista social, ”não tinha
dúvidas quanto à escala de valores: a liberdade era perigosa, a grandeza do País
era um imperativo”. M
URILO DE CARVALHO, José. Pontos e Bordados: escritos de
história e política. Belo Horizonte, Ed. UFMG, 1998, p. 175.
12
DOLHNIKOFF, Miriam. O projeto nacional de José Bonifácio. In Novos Estu-
dos. São Paulo, CEBRAP, n. 46, novembro de 1996, p. 122.
ATILIO BERARDI